A internet mudou completamente a maneira como as pessoas trabalham, consomem informação e ganham dinheiro.
Hoje, uma pessoa pode transformar um conhecimento em curso, vender produtos pelas redes sociais, prestar serviços remotamente, trabalhar como freelancer, produzir conteúdo, criar uma audiência ou desenvolver um negócio digital.
As possibilidades são enormes, mas existe um outro lado dessa transformação. A mesma internet que abriu portas para novas formas de renda também criou um ambiente perfeito para promessas de dinheiro rápido, ostentação, sorteios, investimentos milagrosos e estilos de vida aparentemente perfeitos.
E um caso que voltou a chamar a atenção do público em agosto de 2026 ajuda a ilustrar essa discussão: o do influenciador Eduardo Razuk, alvo da Operação Rodas da Sorte, da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul.
O objetivo aqui não é antecipar uma conclusão judicial sobre o caso, mas utilizar o episódio como ponto de partida para uma reflexão muito mais ampla:
Como saber se aquilo que vemos na internet representa uma oportunidade real de geração de renda ou apenas uma aparência cuidadosamente construída?
O caso Eduardo Razuk
Eduardo Razuk ganhou notoriedade nas redes sociais produzindo conteúdo relacionado ao universo automobilístico e exibindo veículos de alto padrão.
Segundo as investigações da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, ele teria promovido mais de 100 sorteios por meio de rifas de veículos e outros produtos desde 2019.
A investigação apontou ainda que o grupo teria movimentado mais de R$ 100 milhões em apenas seis meses. Durante a Operação Rodas da Sorte, foram apreendidos 22 veículos de alto padrão, além de relógios e outros bens, enquanto a Justiça determinou bloqueios patrimoniais.
Em 28 de agosto, a Polícia Civil informou a conclusão do inquérito e o indiciamento dos envolvidos por diferentes condutas, incluindo exploração de loteria não autorizada, lavagem de dinheiro, associação criminosa e publicidade enganosa, conforme a individualização feita pela investigação.
É importante destacar que indiciamento não significa condenação.
A defesa de Razuk, inclusive, contesta as acusações e sustenta que os sorteios eram autorizados por uma loteria oficial e que os impostos correspondentes teriam sido pagos.
Em 31 de agosto, a Justiça determinou a substituição da prisão preventiva por medidas cautelares. Portanto, neste momento, Razuk responde ao caso em liberdade, sujeito às determinações judiciais.
E é justamente aí que o caso deixa de ser apenas uma notícia policial e passa a interessar ao leitor do Grana Inteligente.
O problema não é ganhar dinheiro pela internet
É importante deixar isso claro, ganhar dinheiro pela internet é perfeitamente possível, e existem inúmeras formas legítimas de fazer isso.
Um profissional pode:
- prestar serviços como freelancer;
- desenvolver sites;
- trabalhar com programação;
- editar vídeos;
- produzir conteúdo;
- vender produtos;
- dar aulas;
- prestar consultoria;
- trabalhar com marketing digital;
- criar aplicativos;
- desenvolver automações;
- vender produtos digitais;
- atuar como afiliado;
- monetizar um canal;
- administrar redes sociais de empresas.
A internet reduziu algumas das barreiras tradicionais para começar uma atividade. Antes, para abrir um negócio, muitas vezes era necessário alugar um espaço físico, contratar funcionários e investir uma quantia significativa.
Hoje, dependendo da atividade, um computador ou até mesmo um celular pode ser suficiente para começar.
O problema surge quando a oportunidade é apresentada como algo muito diferente disso.
O perigo da promessa de dinheiro fácil
Existe uma diferença enorme entre:
“Você pode construir uma renda extra utilizando suas habilidades.”
e:
“Descubra o método que me fez ficar rico rapidamente.”
A primeira afirmação reconhece que existe trabalho, aprendizado e construção, a segunda pode criar a expectativa de que riqueza seja consequência de simplesmente seguir uma fórmula.
E é justamente nesse ponto que o consumidor precisa acender o sinal amarelo. Quanto mais extraordinária for a promessa, maior deve ser a necessidade de investigação.
“Mas ele tem carros, casas e uma vida de luxo…”
Esse talvez seja um dos maiores problemas das redes sociais, a aparência de sucesso pode funcionar como uma poderosa ferramenta de persuasão.
Imagine alguém que aparece diariamente:
- dirigindo carros de luxo;
- viajando;
- frequentando restaurantes sofisticados;
- hospedando-se em hotéis caros;
- mostrando relógios;
- exibindo grandes quantias de dinheiro;
- apresentando resultados financeiros extraordinários.
O cérebro humano naturalmente associa essas imagens a sucesso, e surge uma conclusão automática: “Se ele conseguiu, eu também consigo.”
Mas existe uma pergunta muito mais importante:
De onde veio esse dinheiro?
Essa pergunta deveria fazer parte da educação financeira moderna. Não basta olhar para o patrimônio apresentado, é necessário compreender qual é a origem da renda.
Aparência não é patrimônio
Um carro de R$ 1 milhão estacionado na garagem não significa necessariamente que aquela pessoa tenha R$ 1 milhão de patrimônio.
O veículo pode estar:
- financiado;
- em nome de uma empresa;
- alugado;
- emprestado;
- em consignação;
- vinculado a uma operação comercial;
- ou efetivamente ser propriedade da pessoa.
A mesma lógica vale para imóveis, relógios, viagens e outros bens.
Nas redes sociais, entretanto, tudo isso pode parecer patrimônio pessoal, é por isso que uma das regras mais importantes da educação financeira deveria ser:
Não confunda aquilo que alguém mostra com aquilo que alguém realmente possui.
O caso das rifas também ensina uma lição importante
Existe ainda uma questão jurídica que o consumidor precisa conhecer.
O Ministério da Fazenda afirma atualmente que rifas com venda de bilhetes numerados são proibidas no Brasil, sendo admitida, nesse formato, a realização por entidades beneficentes dentro das regras legais aplicáveis.
Já promoções comerciais realizadas por empresas possuem regras próprias e dependem de autorização prévia da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.
O próprio Ministério esclarece que pessoas físicas não podem realizar promoções comerciais autorizadas nessa modalidade.
Isso gera uma lição extremamente importante:
Antes de colocar dinheiro em uma promoção, sorteio ou oportunidade divulgada nas redes sociais, procure saber se ela é legalmente autorizada.
Não basta o influenciador dizer:
“É legal.”
Não basta existir um CNPJ, não basta haver um site bonito, não basta aparecer um contrato, e muito menos basta ter milhões de seguidores.
Milhões de seguidores não significam milhões de reais
Esse é outro conceito que merece atenção, imagine dois perfis.
Perfil A
Possui 2 milhões de seguidores.
Mas não possui:
- empresa estruturada;
- receita recorrente;
- patrimônio comprovado;
- produtos consistentes;
- histórico empresarial.
Perfil B
Possui 50 mil seguidores.
Mas possui:
- empresa lucrativa;
- clientes recorrentes;
- propriedade intelectual;
- produtos;
- investimentos;
- fluxo de caixa;
- patrimônio construído ao longo de anos.
Qual dos dois é mais rico?
Não há como responder olhando apenas para o número de seguidores.
Audiência é um ativo. Mas audiência não é patrimônio.
A internet pode ser uma excelente fonte de renda extra
E aqui está o ponto principal que o Grana Inteligente deve transmitir. O problema não é buscar renda extra, pelo contrário, a internet oferece oportunidades legítimas para quem está disposto a trabalhar. Uma pessoa que sabe editar vídeos pode começar oferecendo pequenos serviços.
Quem entende de programação pode desenvolver soluções ,quem domina determinado assunto pode dar aulas, quem possui habilidade comercial pode vender produtos, quem entende de marketing pode prestar serviços para pequenas empresas, quem possui conhecimento financeiro pode produzir conteúdo educacional responsável.
O princípio é sempre o mesmo: gerar valor para alguém em troca de uma remuneração.
Renda extra deveria começar com uma pergunta
Em vez de perguntar:
“Como posso ficar rico rapidamente?”
Experimente perguntar:
“Qual problema eu consigo resolver para outra pessoa?”
Essa mudança de pensamento é enorme. Um vizinho não tem tempo para passear com o cachorro, uma criança precisa de reforço escolar, uma pequena empresa precisa de um site, um comerciante não sabe administrar suas redes sociais?
Você pode ajudá-los, você pode fazer isso.
A lógica é muito mais sustentável: problema → solução → valor → remuneração.
O preço da renda extra também é o seu tempo
Existe, porém, outro ponto que muitas vezes é esquecido.
Renda extra não é dinheiro grátis, ela exige: tempo.
Se você trabalha oito horas por dia e decide dedicar três horas todas as noites a uma atividade adicional, está trocando parte do seu tempo livre por uma possibilidade de renda.
Por isso, antes de começar, pergunte:
- Quanto vale minha hora?
- Quanto tempo tenho disponível?
- Quanto posso ganhar por hora?
- Essa atividade pode crescer?
- Estou aprendendo alguma habilidade?
- Existe possibilidade de transformar isso em uma carreira?
Uma renda extra de R$ 1.000 pode ser excelente.
Mas talvez uma atividade que hoje gera R$ 500 permita desenvolver uma habilidade que, daqui a alguns anos, aumentará seu salário em milhares de reais.
Nem todo retorno precisa ser imediatamente financeiro.
Cinco sinais de alerta antes de seguir um “guru” da internet
1. Promessa de enriquecimento rápido
Frases como:
“Fique rico em 30 dias.”
ou
“Ganhe R$ 10 mil trabalhando duas horas por dia.”
Devem despertar desconfiança, não significa que resultados excepcionais sejam impossíveis, significa que promessas extraordinárias exigem evidências extraordinárias.
2. Ostentação como principal argumento
Se o principal argumento para vender alguma coisa é:
“Olhe para o meu carro.”
Isso não prova que o método funciona. Um carro comprova apenas que um carro existe.
3. Falta de transparência
Desconfie quando não fica claro:
- de onde vem a receita;
- qual é o produto;
- qual é o custo;
- quais são os riscos;
- quais são as condições;
- quem é a empresa responsável.
4. Pressão para decidir rapidamente
“Últimas vagas.”
“Somente hoje.”
“Depois vai custar dez vezes mais.”
“Você precisa entrar agora.”
A urgência pode ser uma técnica legítima de vendas, mas também pode impedir que o consumidor faça justamente aquilo que deveria fazer: parar e analisar.
5. Resultados impossíveis de verificar
Depoimentos, prints de faturamento e extratos apresentados nas redes sociais não são, sozinhos, provas suficientes.
Antes de investir dinheiro, procure informações independentes.
A regra de ouro do Grana Inteligente
Existe uma regra simples que pode evitar muitos problemas:
Nunca tome uma decisão financeira baseado apenas naquilo que alguém mostra nas redes sociais.
Pesquise, compare, faça contas, procure fontes independentes, entenda os riscos, verifique a empresa, consulte órgãos oficiais quando necessário, e principalmente:
não entregue seu dinheiro porque alguém parece rico.
A verdadeira riqueza não precisa ser exibida
Talvez essa seja a maior reflexão que o caso proporciona. A internet criou uma situação curiosa: quem realmente possui patrimônio pode não parecer rico.
Enquanto isso, quem deseja parecer rico pode fazer questão de mostrar tudo.
Um investidor pode ter milhões aplicados e continuar dirigindo um carro relativamente simples. Enquanto outra pessoa pode aparecer diariamente em um carro de luxo sem possuir patrimônio equivalente.
Por isso, educação financeira também significa aprender a enxergar além da aparência.
Conclusão: ganhar dinheiro é possível, enriquecer exige construção
A internet abriu uma das maiores oportunidades da história para quem deseja aumentar sua renda.
É possível começar pequeno, é possível trabalhar como freelancer, é possível vender conhecimento, é possível criar conteúdo, é possível desenvolver produtos, é possível construir uma empresa, mas existe uma diferença fundamental entre construir renda e vender a promessa de riqueza.
A primeira exige trabalho, conhecimento, tempo, capacidade de gerar valor e consistência, a segunda pode se apoiar apenas na aparência.
O caso Eduardo Razuk, independentemente do resultado final da investigação e do processo judicial, serve como um alerta para uma realidade muito maior: a imagem que alguém constrói na internet não necessariamente revela a origem, a estrutura ou a legalidade de seu patrimônio.
E essa talvez seja uma das maiores lições de educação financeira que podemos levar para as redes sociais:
Não tenha vergonha de começar pequeno. Desconfie de quem promete chegar ao topo sem mostrar o caminho.
Porque renda extra de verdade pode começar com um simples serviço, uma habilidade ou algumas horas por semana.
Riqueza sustentável, porém, é construída — não sorteada.



